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  • Natacha Barros

Um convite às desenhistas


Uma brevíssima introdução a história da arte: o corpo e a mulher.

Fugindo um pouco da ideia primeira da mulher na história da arte diminuída como modelo/musa, busquei aqui trazer outras informações a respeito da participação das mulheres nesta pretensa “história da arte ocidental”.

A oferta de um workshop de DESENHO COM MODELO VIVO exclusivamente feminino surge do incomodo com algumas questões que ficaram suspensas no tempo e aos poucos vão se revelando a partir da pesquisa por mulheres, entre outros estudiosos, sobre a presença da mulher na arte.

A história do corpo na arte é pregressa. Remonta à Antiguidade Clássica a presença de estudos do corpo com modelo vivo, estabelecendo-se proporções ideais que foram seguidas muito mais à frente, já no período Renascentista em diante. Como disciplina, tornou-se a base do ensino de Arte nas Academias que se popularizaram na Europa ao longo dos séc XVII, XVIII e XIX, quando ao modelo vivo masculino foi também acrescentado o ensino da anatomia em cadáveres, e posteriormente a adoção de nus femininos, numa estratégia de modernização do ensino, como afirma a historiadora, Elaine Dias, sobre o tema:

“[...] o estudo a partir do modelo vivo se desenvolve, sobretudo, no século XIX francês. A clássica metodologia acadêmica, embora extremamente forte e valorizada em alguns momentos da história, sofre suas alterações na segunda metade daquele século. Incorporará métodos diversos e, sobretudo, vinculados a uma certa modernidade, como o uso da fotografia. Do modelo clássico à sua modernização, o aprendizado através do modelo vivo foi e continuará sendo, porém, e indiscutivelmente, o tradicional estudo de nu..."

Talvez possamos afirmar que o estudo do corpo com modelo vivo foi essencial para a criação das consideradas grandes 'obras primas' da cultura europeia, ou, como ficou conhecido, pintura histórica, aquelas que narram os grandes feitos do homem, as mitologias clássicas, ou seja, tudo aquilo que consideramos a mais alta forma de pintura da modernidade. No entanto, é curioso perceber como isso se deu no campo da arte para as mulheres.

A nós relegada a "profissão" de donas de casa, àquelas que se propunham um fazer artístico lidavam com a ideia de instrução como prenda de casamento. As academias de arte que tanto formavam grandes mestres nem sempre aceitavam as mulheres e a elas, por tempos, o que seria a base do conhecimento, como descrito acima por Elaine Dias, era negado. Por tanto, imaginemos quanta ironia que, um discurso comum no século XIX, no qual as mulheres eram inferiores intelectualmente aos homens, e portanto não conseguiam produzir grandes obras, no que porém se via, seus estudos, se chegassem a academia, se resumiam a natureza morta, num momento em que o corpo humano era o objeto principal das produções contemporâneas.

Outra referência que nos dá pistas sobre a mulher neste período da história da arte no mundo ocidental é da socióloga, Ana Paula Cavalcanti Simioni, que expõe na contemporaneidade, em sua pesquisa sobre a presença de artistas brasileiras nas academias de arte francesas no séc. XIX, o apagamento dos registros das mulheres que passaram pelas formações. Simioni, em busca de suas fontes se depara com um fato assustador, os arquivos de matrícula de uma respeitada academia francesa, a Academia Julian, tinham as listas de classes masculinas disponíveis publicamente no Arquivo Nacional, enquanto que as respectivas listas de classes femininas estavam guardadas na casa de um dos proprietários da marca! A pesquisadora deflagra a questão dos valores e desigualdade de gênero na tão imaculada objetividade das ciências, as fontes são tão manipuláveis quanto os fatos, mas sempre estão a serviços de algum propósito. Qual?

Se à mulher o corpo foi tão caro no passado, e ainda hoje temos que nos preocupar com o policiamento dos nossos próprios, é igualmente tão grave quanto na ausência de ocupação dos espaços, físicos e imaginais. Neste março, abriremos uma turma que se dedica não somente ao exercício do desenho, mas também ao exercício de apropriação desses espaços historicamente a nós negadas.

DIAS, Elaine. Um breve percurso pela história do Modelo Vivo no Século XIX - Princípios do método, a importância de Viollet Le Duc e o uso da fotografia. 19&20, Rio de Janeiro, v. II, n. 4, out 2007. Disponível em: <http://www.dezenovevinte.net/ensino_artistico/ed_mv.htm>.

SIMIONI, Ana Paula Cavalcanti. As mulheres artistas e os silêncios da história: a história da arte e suas exclusões. labrys, estudos feministas, jan/jul de 2007. Disponível em: https://www.labrys.net.br/labrys11/ecrivaines/anapaula.htm.

SERVIÇO:

WORKSHOP GRATUITO

DESENHO COM MODELO VIVO

- 10 VAGAS POR SESSÃO -

13, 20, 27/MAR & 03/ABRIL

QUARTAS-FEIRAS ÀS 19H

Inscrições pelo whatsapp

94 8116-8679 - Fiama Rodrigues


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