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  • Galeria de Arte Vitória Barros

ATRAVESSANDO O GRANDE RIO. OBSTÁCULO. PERSEVERANÇA TRAZ BOA FORTUNA.


Este título é a síntese do que senti quando vi o trabalho do Alixa. A poética do rio que flui sem cessar, do barco como meio de atravessá-lo nunca sem algum risco e a perseverança em fazê-lo mesmo assim, é para mim o augúrio de sorte e da beleza das imagens convertidas em forma de texto.

Vi um conjunto de trinta e três imagens produzidas como Gravura eletrônica. Este é um termo relativamente recente em Artes Visuais, dedicado a conceber os meios digitais como um ramo do pensamento conceptivo enraizados na Gravura.

O computador é o meio onde nascem as imagens. Elas são predominantemente fotográficas e manipuladas por software editor de imagens (Adobe Photoshop basicamente), os impulsos eletrônicos fixam-nas no disco rígido de um computador, como um modelo operativo análogo, que se sedimenta na corrente elétrica que perpassou o cérebro de seu autor no momento da produção da imagem. Fenômeno e fundamento. Experiências, percepções, decepções, alegrias, indiferença, todo espécie de impulso fixado e sempre suscetível de mudança. É gravura. É ela que conduz o pensamento do artista rumo à outra margem do rio, não só como um método de concepção de imagem, mas também como algo que se multiplica e difundi para além de seu limite e de modo condizente com as distancias amazônicas. Afinal o Alixa é também um educador!

Compostas de quatro motivações básicas: Rio Tocantins, os barcos que seguem seu leito ou o cruzam, alguns fragmentos deles e restos de seu fabrico (calafetação), bem como os tapumes improvisados delimitando uma fronteira precária tornadas mais visíveis e resistentes por conta da aparência que o artista lhe deu. Cada uma destas motivações aparece tanto sozinha como mesclada.

Aquilo que os amalgama em conjunto é a sensualidade expressa em cores fortes e vibrantes de um povo bonito por natureza, Marabá gosta do sol e ele da luz e das cores, mistura de imagens, texturas visíveis aplanando o tato para torna-lo memória reavivada sempre que ela é vista. Fragmentos de madeira e do fabrico ou barcos inteiros manchados de cor, cortando uma água pintada curso afora, imagens que são ao mesmo tempo lúdicas e lúcidas, tal como Racionalidade Estética, título de um dos trabalhos, onde paradoxalmente profundidade e superfície são tratadas num mesmo plano. Então é pintura?

São ambas! O desejo das imagens é existir independente destas considerações eruditas, mas só a título de curiosidade histórica, muitos séculos foram consumidos se discutindo se a natureza da gravura tendia mais para a linha e para o desenho, como na gravura alemã, ou se tenderia mais para as massas de natureza pictórica, como é característico da gravura flamenga ou parte significativa da italiana.

E o quê importa?! O Alixa nasceu no lugar certo! A gravura brasileira generosa que sempre foi mais cedo ou mais tarde abarcará como seus, os procedimentos digitais, pois em 1957 as gravuras de Fayga Ostrower receberam o Grande Prêmio Nacional de Gravura da Bienal de São Paulo, dando impulso de pronto que abriu caminho para a aceitação dos procedimentos expressionistas abstratos como sendo válidos também no cenário artístico brasileiro, tanto quanto o era para a pintura nos EUA. As imagens embora fotográficas, muito me lembraram destes procedimentos, que, aliás, só as engrandece ainda mais.

Outro elemento interessante do trabalho ora apresentado são suas dimensões em grande formato e o uso predominante do PVC como suporte para impressão digital, evocando com esta escolha, parte do potencial destinado às mídias exteriores só que aplicadas no âmbito do espaço interno de uma residência, como objeto estético de fruição em recato, além de praticidade e durabilidade, pois não necessita de moldura e nem é tão suscetível à ação externa quanto é o papel, embora eles estejam presentes nesta mostra em minoria e em tamanhos mais reduzidos.

Para finalizar porque imagens se veem e se sente, enquanto as palavras se exaurem ao descrevê-las, gostaria de destacar um dos trabalhos no qual a imagem surpreendentemente não é impressa, mas projetada, neste caso, a meu ver, a negação da impressão é ao mesmo tempo uma reafirmação da imaterialidade dos meios digitais ante a materialidade dos meios históricos e uma ação deliberada para valorizar a luminosidade das cores (o sol gosta de luz e de cores), naturalmente esmaecidas em meio a tantas imagens que apenas a reflete por serem impressas.

Desejo a todos o mesmo deleite que tive ao vê-las surgir ante meus olhos e que me suscitaram as palavras que acabo de redigir.

Prof. Dr. Wilson Roberto da Silva

Gravador e Professor de Gravura da Faculdade de Artes Visuais da Unifesspa


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