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  • Galeria de Arte Vitória Barros

DOS DIAS QUE VIVI


Com grande atuação no cenário marabaense, a artista e produtora cultural, Lara Borges abriu o segundo semestre de exposições da Galeria de Arte Vitória Barros.

A exposição é composta por três instalações que dialogam com identidades e impressões sobre o universo feminino, como é o caso da proposição “penteadeiras”, na qual a artista, Lara Borges, propõe a cinco mulheres que criem esses espaços individuais e desta forma caracterizar aspectos de personalidades.

DOS DIAS QUE VIVI...

Esta exposição surge como um questionamento a respeito do feminino, sempre presente na produção de Lara Borges. Há anos a artista persegue uma forma essencialmente , encontrada dos diversos estereótipos à complexidade de mulheres reais. Nessa busca, Lara se deparou com um universo de acúmulo, repetição e colecionismo, e neste caso não falo de objetos, mas de um repertório de histórias e personalidades que dizem respeito ao que se estabelece socialmente como o .

Com uma boa dose de empatia, a artista desloca aos outros o protagonismo de sua própria obra, e a partir do que o outro é, e lhe permite acessar, constrói narrativas. é composta por três instalações que dialogam com identidades e impressões sobre o tema do feminino. Em uma das proposições, Lara Borges convidou cinco mulheres para criarem penteadeiras a seu gosto. Tal mobiliário foi muito comum no século XIX; aqui, para além de sinônimo do cuidado com a aparência, é também santuário de pequenos orgulhos, cada qual com sua ideia e imagem, inventando e se reconhecendo dentro ou fora de quaisquer padrões ou estereótipos ilusórios. Ao jogar com espelhos e maquiagens a artista oculta pessoas na pele dos seus objetos e oferece ao público perguntas sobre aparência e ilusão.

Natacha Barros, curadoria.

DEPOIMENTOS DA PROPOSIÇÃO

Evilângela Lima, 42 anos

Professora, Livre e Cristã

Em que momento você se descobriu mulher?

Ainda não me descobri.

Me construo a cada segundo uma nova mulher. Sou a lagarta tentando romper o casulo. A borboleta livre será a mulher que construí.

Dos dias que vivi...

Dias incontáveis...

Alguns muito longos, outros tão curtinhos.

As horas de cada dia ficaram suspensas na minha memória ranzinza. Queria ter guardado as sensações, cheiros, afagos, choro, pudor, sem-vergonhice, risos, toques, quedas, arranhões, abraços, olhares, com mais força, dentro de mim.

Mas ficou apenas uma nesga ranhura de cada momento.

Ás vezes sinto todas essas vivências saltitarem, borbulhando meu ser, vulcanizadas na alma. Não explodem em larvas, brilhantes e quentes, que poderiam provocar espantos destrutivos, apenas ameaçam, com barulhos inteligíveis, algazarrando o exterior e interior de mim.

Então acalmo tudo...

E passo a armazenar mais dias de vivências.

Gabi Silva, 28 anos.

Servidora pública, Casada, Espirita Kardecista.

Em que momento você se descobriu mulher?

Eu me descobri mulher nas vozes dos adultos que enfatizavam a diferença entre esses dois gêneros, a diferença não apenas física, pois esta eu já percebera, mas principalmente a comportamental, de opiniões, a social.

A identidade feminina foi fixada em cima das normas e “bons costumes” sociais, sempre disseram o que nós mulheres podemos ser ou fazer. Cresci ouvindo que mulher tem que sentar comportada, que mulher tem que ocupar seu lugar nas tarefas domésticas e servir a todos, que mulher não pode contrarias seu marido, pois precisa ser submissa, que mulher precisa ser recatada, sensível, moderada, sábia e disponível.

Quando me percebi mulher e passei a refletir e questionar essa identidade de MULHER, percebi ás amarras que nos aprisionam e como nosso caminho é árduo, no entanto, escolhi mesmo pressa a essas amarras, libertar minha alma dos rótulos e estereótipos, romper com os elementos indenitários fixos que nos impõe e decidi ser esse emaranhado de elementos simbólicos e representativos do que almejo para todas, decidi ser EU.

Dos dias que vivi...

Foram dias de lutas, conquistas e sonhos. Foram dias de aprendizados e construção, dos dias que vivi e vivo são constante devir, a transformação incessante e permanente pela qual as coisas se constroem e se dissolvem noutras coisas. Foram dias da busca do meu Eu Mulher, inacabada, líquida, híbrida num fluxo contínuo de elementos representativos. Vivo dias na esperança de um futuro, que não chega, onde todas as diferenças são respeitadas e ocupam seu lugar no mundo.

Dona Z (Ezita Silva Machado), 68 anos.

Viúva e cristã

Em que momento você se descobriu mulher?

Quando senti a opressão por ser mulher: a obediência que esperavam de mim só por ser filha, mãe, esposa e nora. Descobri que ser mulher dói e tem um preço alto. Nunca me conformei com esse papel sem reclamar e fazendo do meu jeito, por isso fui considerada estranha, diferente, fui hostilizada mais do que aplaudida. Mas não abri mão de mim.

Dos dias que vivi...

Vivi muitas dores e sofrimentos por ser como sou e por causa das dificuldades da vida, as que todo mundo sofre. Lutei para ficar viva e para criar meus filhos para terem uma vida melhor do que a minha, com honestidade e integridade. Enfrentei tudo e todos, venci.

Letícia Werneck, 44 anos.

Produtora de eventos, casada, evangélica.

Em que momento você se descobriu mulher?

Aos 8 anos e me completei aos 15. Com 20 anos me realizei, construí uma família e hoje, após 25 anos com meu companheiro, tenho uma filha de 1ano e 8 meses.

Natacha Colly, 27 anos.

Designer, casada, agnóstica.

Em que momento você se descobriu mulher?

Descobrir-me mulher foi um processo doloroso. Ser mulher na minha casa era sinônimo de poder, éramos 3 mulheres e um homem, no entanto, não me atraiam a espontaneidade, os decotes e os vestidos, eu gostava da melancolia do pai, e gostava mais ainda de ser cuidada por ele, e ainda, saber que ele deseja ter tido ao menos um filho homem. Eu quis ser esse menino. Mas foi definitivo quando o sangue escorreu pelas pernas. Não havia mais remédio, a cólica parece que me torturava para eu entender que nada mudaria o fato, mesmo que eu me comportasse como um moleque e andasse no meio deles – experiência, que com o passar do tempo me fez entender outras coisas, independente de beleza, sempre haveria uma cantada, nessa fase começou a ser difícil manter os amigos, rs.

Entre outras vivências entendi que ser, ou se colocar como mulher é estar em constante luta. Entendi que eu precisava compreender mais que somente meu eu, mas entender com minhas semelhantes como lutar, como usar nossas armas para não sermos postas a baixo.

Dos dias que vivi...

Aprendi a gozar.


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